Friday, September 30, 2005

Capítulo 2

Levantou. Era estranho estar em pé. Sentia-se um gigante em meio às pequenas coisas atiradas pelo chão. Recolocou o telefone no gancho e acendeu a luz. O colorido das roupas, dos quadros, das capas de livros contrastava com o dia. Sentiu um embrulho no estômago diante daquilo. Deixou o quarto e foi até a cozinha em busca de um copo de água. A pia estava cheia de pratos lambuzados e copos com restos de bebidas coloridas. Precisava de água. Abriu a geladeira. Um iogurte vencido, duas maçãs podres, um sanduíche que esquecera de comer, uma caixa de leite fechada e algumas garrafas pela metade. Procurou em vão por algum copo limpo e acabou por beber direto do bico. Sentia-se um pouco melhor. Voltou ao quarto pesarosamente, acompanhado pelos fortes pingos da chuva que insistia em cair. O vento estava mais calmo. Ele também. O telefone tocou ruidosamente e um clarão iluminou uma velha foto já esquecida. Ele preferiu não atender. Parado na porta, olhou com cuidado para dentro do quarto, tentando sorrir. Lembrou-se o primeiro dia em que estivera ali. Das risadas, dos papos jogados fora, das guerras de travesseiro, das juras de amor, das brigas, dos prantos, das malas feitas, da partida, da solidão. Desistiu de sorrir. Mais um clarão iluminou a rua e apagou as luzes da casa. Estava tudo cinza novamente. As lágrimas vieram e como uma criança desamparada, sentada no carpete empoeirado, encostado na parede gelada, ele chorou. Lá fora o dia chorava com ele. E o vento tinha voltado a uivar e bater nas janelas.

3 comments:

Anonymous said...

Legal. É alguma metáfora pra mudança?

Anonymous said...

hmm... estou a espera do capítulo 3 :} excelentes textos!

Anonymous said...

Só de curiosidade... Essa é uma história comum ou tem algo de auto-biografico? :**